Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Uma leitura de "Aparição", de Vergílio Ferreira

A obra “Aparição”, de Vergílio Ferreira, apresenta vinte e cinco capítulos, que correspondem a um ano escolar. O narrador, Alberto Soares, é auto e homodiegético.
Quanto à estrutura da obra, destacamos o prólogo e o epílogo, de vincada importância, impondo-se graficamente pelo itálico e pelo tom diferente em relação ao da restante narração, graças à forte densidade poética. Se o prólogo funciona como uma espécie de abertura, o epílogo fecha-o, sem o fazer à maneira clássica, deixando sempre margem para a afirmação do “eu” que não deixa de se deslumbrar com o mistério do tempo. No prólogo é nos apresentado o narrador e os principais temas do romance, como a vida e a morte, isto é, a condição humana, na verdade, uma interrogação sobre a existência. É a recordação, na velha casa, da história que o protagonista é testemunha. Já no epílogo, conclui-se a história de Évora e assistimos a uma retoma (circular) da situação inicial, na velha casa da aldeia.

Na sua qualidade de romance-ensaio encontramos temas existencialistas, como a solidão existencial, o conflito com Deus e com a transcendência e a construção do destino pelo Homem. São abordados a procura do conhecimento do Homem sobre si próprio e sobre a sua existência e a morte enquanto limite da condição humana.

O “eu” impõe-se como personagem central, como personagem que se afasta ou detentora de revelar, de justificar um problema de sempre. O protagonista privilegia o seu “eu”, mas o que sai verdadeiramente privilegiado é o “eu” que existe em cada homem. Em “Aparição” há os eleitos e os outros. Os eleitos têm um determinado dom, revelam-se em cumplicidade com o “eu”, com Alberto. Os outros são os que não sentem a necessidade de se interpelar.

Para Alberto, relembrar o passado à luz da Lua é fazê-lo aparecer, é tentar encontrar a realidade oculta. A aparição liga-se a um estado que permite descobrir, sentir a visão, revelar. Aparição é o encontro interior do Ser e da Ordem, é a verdade inacessível. A obstinação do protagonista é justificar a vida face á inverosimilhança da morte. A resposta que não encontra é geradora de angústia. A morte das personagens, como Cristina e Sofia, é pretexto para interrogação e busca do “eu”.
Concluindo, ao longo da obra, o narrador vai atingindo um estado de purificação, em que o milagre da “aparição” acontece. Assim, descobre-se e volta aos seus primórdios. No entanto, as suas ideias nunca foram acolhidas pela sociedade, pelo que não chegou verdadeiramente a entrar na cidade de Évora.

 
Escrito por: Sofia P. Faustino, Catarina Silva, Domingos Lopes Gallego e Sara Nunes.

segunda-feira, 21 de maio de 2018


Diário de Notícias

Como é do conhecimento público, Brás da Mata, escudeiro destacado e conhecido pelos seus serviços prestados, recentemente casado, não sendo ele exceção dos restantes nobres, como seria de esperar, encontra-se habitualmente acompanhado por um moço.

No entanto, ao contrário daquilo que seria esperado por parte do mesmo, este não dispõe de qualquer fortuna.

Faz bastante tempo que se escutam comentários desagradáveis e negativos sobre o mesmo e sobre a ausência de bens ou qualquer tipo de fortuna por parte deste.

Assim sendo, e como seria de esperar, toda esta situação tem impacto e consequências no modo de vida do moço que o acompanha.

Na tentativa de averiguar todas estas afirmações, um jornalista do “Diário de Notícias” acompanhou diariamente o quotidiano de ambos ao longo do mês de Janeiro, interrogando e pedindo a opinião de vizinhos e alguns intervenientes como Inês Pereira, atual mulher do escudeiro.

A situação tornou-se de tal modo crítica que estes perderam qualquer formalidade ou respeito no relacionamento entre si, visto que Brás da Mata, “homem avisado”, não possui tostão que o possa sustentar a ele ou a moço que o acompanhe, levando assim uma vida miserável.

 

14 de Fevereiro, 1537

Rita Fernandez e Rafaela Garcia

segunda-feira, 12 de março de 2018

António Nobre em análise


Após a análise dos poemas “Lusitânia no Bairro Latino”, “Poveirinhos”, “Aqui, sobre estas águas cor de azeite”, “Ó virgens que passais e “Balado do caixãosão visíveis linhas temáticas e linguagem própria de António Nobre. 

A sua poesia caracteriza-se por uma atenção ao real e ao mundo dos afetos, reforçada pelo sentimento de nostalgia. Mas também se percebe nos seus poemas alguma ironia amarga face à decadência de Portugal e à sua própria doença. Assim se compreende um certo sentimentalismo da sua poesia, ligada a temas como a saudade, o exílio, a pátria e a infância. Insere-se numa poesia portuguesa pré-modernista, ao colocar em questão uma linguagem poética fortemente convencional e normativa.
 
Tanto no poema A (“Lusitânia no Bairro Latino”), quanto no poema C (“Aqui, sobre estas águas cor de azeite”), destaca-se o narcisismo excessivo, um tom melancólico e pessimista por parte do sujeito poético. É visível uma oposição do passado, uma infância feliz, e presente, vida de dor e desencanto. Simultaneamente deparamo-nos com um sentimento de saudade da pátria e do paraíso perdido. É percetível uma conjugação da biografia pessoal com a história coletiva. Por fim, está bem patente uma evocação pela memória.

No poema B (“Poveirinhos”) e no poema E (“Balada do caixão”), é revelado um interesse pelo provinciano, pitoresco e popular. Na composição E é manifestada uma obsessão pela morte.
     
No poema D (“Ó virgens que passais”) note-se na figura feminina enquanto frágil, pura e espiritualizada, caracterizando-se por traços vagos, espectrais e marianos.
 
O estilo e linguagem deste poeta português apresentam um tom coloquial, é evidente uma conjugação do amor e da ternura com as notas sérias e as questões religiosas. Há ainda um «filtro» popular e infantil na apresentação do real, a linguagem é simples e acessível, maioritariamente prosaísta e é percetível a variedade de usos e combinações de estrofes e metros.

Em “Lusitânia no Bairro Latino”, encontramos a presença da apostrofe (“Ó padeirinhas a amassar o pão”, v. 66), a metáfora (“E a serra a toalha, o covilhete e a sala”, v. 24) e a aliteração (“O ceifeira que cegas cantando”, v. 59).

Em “Poveirinhos”, é observável o uso da apóstrofe (“Ó meu pai, não ser eu dos poveirinhos!”, v. 9) e de um eufemismo (“Calafetados pelo breu das Dores”, v. 7).

Em “Aqui, sobre estas águas cor de azeite”, é recorrente o uso da anáfora (“Sem um beijo, sem uma Ave-Maria, /Sem uma flor, sem o menor enfeite”, vv. 7 e 8) e a adjetivação (“Lar adorado, em fumos, a distância”, v. 10).

Em “Ó virgens que passais” é usada a enumeração (“O vinho, Graça, a formosura, o luar!”, v. 8) e a apóstrofe (“Ó suaves e frescas raparigas”, v. 13).         

Em “Balada do caixão” é claro o uso de diálogos (“- Olá, bom homem! Quero um fato”, v. 11) e referências entre parênteses que evidenciam, para além de comentários frequentes, uma linguagem oralizante (“(pôs-se o bom homem a aplainá-lo)”, v. 20).


(Por motivos de extensão dos poemas analisados, optámos por não os transcrever, já que estes se encontram facilmente na Internet.)

 Escrito por: Domingos Lopes Gallego; Sara Nunes; Catarina Silva e Sofia P. Faustino

terça-feira, 6 de março de 2018

Poesia de António Nobre

António Nobre (1867-1900) foi um homem singular; combinava elegância com extravagância, o seu aspeto era único e os que o viam chamavam-lhe “a criatura nova”. Procurou trabalhar nos seus poemas um certo pitoresco português ligado à vida do povo, à sua simplicidade e tragédia de vida, o que revela uma atitude romântica e saudosista que marcará a literatura portuguesa.

A obra é a sua obra-prima. Destaca-se por ser um livro de memórias, premonições e viagens onde é observável uma obsessão pela morte.

A sua poesia caracteriza-se por uma atenção ao real e ao mundo dos afetos, reforçada pelo sentimento de nostalgia. Mas também se percebe nos seus poemas alguma ironia amarga face à decadência de Portugal e à sua própria doença, a tuberculose que o afetou e lhe provocou a morte. Assim se compreende um certo sentimentalismo da sua poesia, ligada a temas como a saudade, o exílio, a pátria e a infância. Insere-se numa poesia portuguesa pré-modernista, ao colocar em questão uma linguagem poética fortemente convencional e normativa.

O estilo e linguagem deste poeta português apresentam um tom coloquial, é visível uma conjugação do amor e da ternura com as notas sérias e as questões religiosas. Há ainda um «filtro» popular e infantil na apresentação do real, a linguagem é simples e acessível, maioritariamente prosaísta e é percetível a variedade de usos e combinações de estrofes e metros.

Segundo Gastão Cruz, "enquanto Cesário revoluciona fundamentalmente o nível linguístico, através da renovação vocabular, a revolução de Nobre, não deixando de situar-se igualmente num plano semântico, e por vezes com uma liberdade de associações e uma violência que encontram o que encontramos em Cesário [...], abala, pela primeira vez, os alicerces, e toda a construção, do edifício romântico-parnasiano." (CF. CRUZ, Gastão - A Poesia Portuguesa Hoje , 2.ª ed. aumentada, Lisboa, Relógio d'Água, 1999, pp. 20-21).


Escrito por: Sofia P: Faustino e Domingos Lopes Gallego




segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Biografia de D. Pedro I e reflexões sobre a justiça na "Crónica de D.Pedro I" de Fernão Lopes


Oitavo rei de Portugal, quarto filho de D. Afonso IV e de Beatriz de Castela.

Casou primeiro com Branca de Castela, a quem repudiou por debilidade física e mental. Casou depois com Constança Manuel, filha de um fidalgo castelhano que, quando veio para Portugal, trouxe consigo Inês de Castro.

A ligação amorosa entre o infante D. Pedro e Inês de Castro foi imediata, o que provocou forte conflito entre D. Afonso IV e seu filho e causou a morte prematura de Constança Manuel. Temendo o monarca a nefasta influência dos Castros em seu filho, resolveu condenar à morte Inês de Castro, o que provocou a rebelião de D. Pedro contra si. Contudo, a paz entre o pai e o filho foi estabelecida em breve e D. Pedro foi associado aos negócios do Estado, ficando-lhe desde logo incumbida uma função que sempre haveria de andar ligada à sua memória – a de exercer justiça.

Durante o seu reinado evitou guerras, logrando aumentar o tesouro. Cunhou ouro e prata e exerceu uma justiça exemplar, sem discriminações, julgando de igual modo nobres e plebeus.

Os documentos coevos e o testemunho de Fernão Lopes definem-nos D.Pedro como justiceiro, generoso, folgazão, amado pelo povo e de grande popularidade. Sobre a sua morte o povo dizia que «ou não havia de ter nascido, ou nunca havia de morrer».

No prólogo da "Crónica de Pedro I", Fernão Lopes alonga-se nas reflexões sobre a justiça, como forma de preparar a narração subsequente do reinado de D.Pedro, marcado pela forma como, muitas vezes, o rei exerceu rígida e compulsivamente essa virtude que "husou muito", (ll. 51-52).
Tratando-se de um prólogo, o texto antecipa as considerações sobre a prática da justiça suscitada pelo relato da atuação do monarca.





quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A figura feminina na poesia de Cesário Verde


(Leitura comparada dos poemas “A débil” e “Deslumbramentos”. )


Em ambos os poemas estamos perante uma vincada presença feminina, de características diametralmente opostas, que causa determinados efeitos no sujeito poético.

No poema “A débil” assistimos à descrição de uma figura feminina natural e simples, ligada ao campo e ao povo. Esta mulher é “bela, frágil, assustada” (v. 2), associando-se à naturalidade rural e a todos os seus aspectos positivos, não se enquadrando no ambiente citadino por ser honesta e pura (“Numa existência honesta, de cristal.”, v. 4). Atente-se, ainda, na sua simplicidade e elegância (“Esse vestido simples, sem enfeites,”, v. 19, “(…) e sem ostentação /Atravessavas branca, esbelta e fina”, vv. 37 e 38). 

Simultaneamente, o “eu” feminino exerce um efeito positivo no sujeito poético, já que a sua presença impele-o a largar os malefícios urbanos (Mandei ir a garrafa, porque sinto/ Que me tornas prestante, bom, saudável”, vv. 11 e 12). Esta mulher revela uma faceta protectora no “eu” poético, que sente um dever de auxílio perante esta figura “fraca e loura” (v. 6). 

 Já na composição poética “Deslumbramentos”, estamos perante a mulher fatal e sedutora, ligada à cidade. Assume uma postura altiva e fria (“E enfim prossiga altiva como a Fama,/ Sem sorrisos, dramática, cortante;” vv. 29 e 30). Esta figura representa a artificialidade da mundividência citadina, evocando as desigualdades sociais aí presentes (“Quando passa aromática e normal,/ Com seu tipo tão nobre e tão de sala,/ Com seus gestos de neve e de metal.” vv. 2-4). Por fim, evidencia uma postura elegante e luxuosa, típica do seu estatuto social elevado (“Ir impondo toilettes complicadas!”, v. 8). 

Ao longo deste poema, o sujeito poético, apesar de se sentir atraído pelo “eu” feminino, deseja vingar-se, já que ela é o reflexo das desigualdades sociais presentes no ambiente citadino, (“Mas cuidado, milady, não se afoite,/ Que hão de acabar os bárbaros reais;” vv. 33 e 34). 

 Concluindo, em ambos os poemas encontramos mulheres típicas do campo e da cidade, registando-se um binómio que se caracteriza por retratos diametralmente opostos.



A Débil

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

"Ela aí vem!" disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, — talvez que não o suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és tênue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.


Deslumbramentos


Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me atrai como um tesouro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de ouro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!



Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde






quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Vida e obra de Goethe publicada em livro pela primeira vez em Portugal

Goethe, autor alemão cuja bibliografia é “das mais impressionantes da literatura universal”, mas escassamente divulgado em Portugal, tem agora, pela primeira vez, publicada uma obra que cobre toda a sua vida e produção literária, filosófica e científica.

Intitula-se “O eterno amador”. Foi publicada pela Bertrand e constitui a primeira monografia em Portugal de Johann Wolfgang Von Goethe, autor e estadista alemão, que fez também incursões pelo campo da ciência natural e que, como escritor, se tornou uma das mais importantes figuras da literatura.

João Barrento, ensaísta, crítico literário e especialista na obra de Goethe, optou por uma monografia, por preferir falar “do pensamento e da obra dos autores” do que limitar-se a escrever uma biografia, disse à agência Lusa.

Toda a primeira parte do livro “faz uma espécie de biografia literária e de pensamento” do escritor alemão, mas aquilo a que se pode chamar “biografia” encontra-se no final do livro, sob o título “Crónica: uma vida, uma obra, uma época”, e consiste numa cronologia dos acontecimentos.

“Preferi deslocar para aí o que é informação biográfica, de autor e de época, em vez de estar a inseri-la numa biografia convencional, que é coisa que não tenho muita vocação para fazer”, referiu.

João Barrento escolheu dar um título ao livro que é uma adjetivação do próprio Goethe – “eterno amador” - por ter sido alguém que nunca quis seguir nem ser “escravo” de “nenhuma corrente, nenhum ‘ismo’ - romantismo ou classicismo” -, tal como o expoente do Romantismo alemão escreveu num pequeno poema no final da vida, um dos milhares de pequenos poemas, que são uma “espécie de súmula de sabedoria de vida”.

Nesse poema, Goethe assumiu que seria sempre “o eterno amador” ou “o amador das coisas e do mundo”.

Esta "biografia literária e de pensamento" procura não só dar uma “visão de conjunto” de quem foi Goethe, mas também fazer justiça a um autor que ficou um “pouco esquecido” e sobre o qual não havia nada em Portugal – exceto algumas publicações dispersas”.

Embora algumas obras tenham sido traduzidas desde o século XIX, aquelas mais conhecidas, como “Fausto” ou “Werther”, “a figura em si é marginal entre os clássicos, porque se trata de um grande clássico das literaturas da época”.

Aliás, como refere João Barrento no livro, “Goethe é, com a Bíblia e Shakespeare, um autor cuja bibliografia ativa e passiva é das mais impressionantes da literatura universal”.

Goethe, que viveu entre os finais do século XVIII e inícios do século XIX, foi um autor, homem de Estado, advogado, pensador versátil, foi relevante política e socialmente no seu tempo, e escreveu poesia, prosa, memórias, ensaios, crítica literária e estética, tratados de botânica e anatomia, tendo deixado um acervo epistolar de mais de dez mil documentos e cerca de três mil desenhos e pinturas.

“É, à sua maneira, um pensador, embora não tenha nenhuma obra sistemática, mas é um pensador especulativo em que a experiência pessoal está sempre em primeiro plano, é uma figura múltipla”.

Tem outro aspeto importante: aparece numa época “em que muita coisa está a mudar no pensamento, nas artes, e que irá suscitar uma grande viragem para aquilo que podemos considerar a nossa modernidade”.

“É uma figura que, por um lado, assimila quase tudo o que está para trás, desde os antigos gregos e romanos, e por outro, anuncia uma série de coisas que aí vêm, nomeadamente a sociedade capitalista. Os desenvolvimentos que o século XIX depois viu estão muito presentes na segunda parte do ‘Fausto’. É uma figura de charneira, de viragem, e condensa imensos saberes”.

O pensamento do autor mantém-se nos dias de hoje: algumas obras podem ser lidas hoje com sentido de atualidade, por exemplo, toda essa segunda parte do “Fausto”, em que “aparece todo o processo de colonização, da civilização moderna, do capitalismo, do que se poderia chamar a glorificação do feminino, a figura da mulher com uma centralidade muito grande, tudo isso já está ali, é significativo e atual”, descreve o ensaísta.

Depois, “há uma atualidade nos clássicos que lhes vem de tratarem as grandes questões humanas e universais e esse universalismo Goethe tem muito, sempre sob uma perspetiva humanista”.

Já a presença de Goethe no espaço português tem sido “irregular” e “problemática” e João Barrento trata esse tema no final do livro, incluindo uma tabela sobre a receção desta personalidade em Portugal, do ponto de vista das obras que foram traduzidas e divulgadas e da presença dele em alguma literatura portuguesa.

Olhando para esta cronologia, percebe-se que “há bastantes momentos em que é importante”, nomeadamente Fernando Pessoa foi um leitor ativo de Goethe, continuando-o e respondendo-lhe com os fragmentos do “Primeiro Fausto”.

“Há também um momento em que o ‘Fausto’ serviu como uma espécie de pedra de toque de referência importante da geração de Antero de Quental, que referimos como a Questão Coimbrã, as grandes discussões que levaram à supressão final dos últimos romantismos e à entrada numa visão mais moderna do mundo e da literatura”.

O “Fausto” suscita uma grande polémica nessa geração e nessa altura, a que se chamou a “Questão do Fausto”, e vai ser um ponto importante de viragem para uma literatura das ideias e não para uma literatura do sentimentalismo, já esgotada, explica João Barrento.

Goethe volta depois a ser impulsionado em Portugal durante o nazismo, altura em que “há uma certa receção universitária, académica, mais em Coimbra do que em Lisboa, talvez porque é aproveitado de formas contraditórias”.

Para alguns, Goethe era visto como “ícone da germanidade” - o homem fáustico como o homem germânico -, recorda João Barrento. Mas esta ideia era “uma grande falsidade, porque o sentido da sua obra é mais universal do que alemão”.

Fonte: Agência Lusa
Texto adaptado pelos alunos de literatura portuguesa.






terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A LIÇÃO DOS CLÁSSICOS EM CAMILO.12 a 14 de Abril de 2018

O Grupo de Investigação Memória e Diálogos Literários do Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos (CEFH) da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UCP, em Braga, está a organizar, para 12, 13 e 14 de Abril de 2018,  o Congresso Internacional A LIÇÃO DOS CLÁSSICOS EM CAMILO CASTELO BRANCO. A data limite para envio de propostas de comunicação foi  ampliada até 11 de Fevereiro de 2018.

Para mais detalhes, vide o anexo​ e a página do evento: http://braga.ucp.pt/alicaodosclassicosemcamilo/




quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Arquivo digital do "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa apresentado esta semana

Um arquivo digital colaborativo do “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa, com imagens dos documentos originais e transcrições de quatro edições da obra, que podem ser consultadas e comparadas, está 'online' e é apresentado hoje, em Lisboa.

O Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego (LdoD) demorou seis anos a ser preparado – de 2012 a 2017 – por investigadores do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra (CLP) e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores em Lisboa (INESC-ID Lisboa).

Agora, pronta e disponível, esta plataforma interativa, financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e pela União Europeia, vai ser oficialmente apresentada, no Auditório da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), pelos seus principais responsáveis, Manuel Portela, do CLP, e António Rito Silva, do INESC-ID Lisboa, anunciou a BNP.

A biblioteca é também uma das colaboradoras neste projeto, nomeadamente através da disponibilização dos manuscritos referentes à obra de Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, autor do Livro do Desassossego.

O Livro do Desassossego contém imagens dos documentos autógrafos, novas transcrições desses documentos e ainda transcrições de quatro edições da obra - de Jacinto Prado Coelho, de Teresa Sobral Cunha, de Richard Zenith e de Jerónimo Pizarro –, que é possível consultar separadamente e comparar.

O Livro do Desassossego, uma das maiores obras de Fernando Pessoa, é um livro fragmentário (com mais de 500 textos distribuídos por diversos documentos), permanentemente em estudo por investigadores pessoanos, que têm interpretações díspares sobre o modo de organizar o livro, já que este ficou inacabado e os fragmentos não têm ligação entre si, embora funcionem como um todo.

Para alguns estudiosos, o livro é um trabalho de autor, para outros, é uma composição de mais de um autor, como é o caso de Teresa Sobral Cunha, que organizou, em conjunto com Jacinto do Prado Coelho e Maria Aliete Galhoz, a primeira edição do livro, publicada apenas em 1982.

Para esta estudiosa, existem dois Livros do Desassossego, um de Vicente Guedes, dos anos 1910 e 1920, e outro de Bernardo Soares, do final dos anos 1920 e 1930.

Além da leitura e comparação das transcrições, o Arquivo LdoD permite que os utilizadores colaborem na criação de edições virtuais do Livro do Desassossego.

A página digital está, assim, dividida em cinco grandes capítulos: “Leitura”, que permite ler a obra de acordo com diferentes sequências, “Documentos”, que contém a listagem de todos os fragmentos e informação acerca das fontes, “Edições”, que permite a visualização dos originais e comparação das transcrições, “Pesquisa”, para selecionar fragmentos de acordo com múltiplos critérios, e “Virtual”, que permite criar edições virtuais e suas taxonomias.

Através da integração de ferramentas computacionais num espaço simulatório, o Arquivo LdoD oferece um ambiente textual dinâmico, no qual os utilizadores podem desempenhar diferentes papéis literários, como se pode ler num texto introdutório ao Arquivo LdoD.

“Trata-se de um recurso multiplataforma e multidispositivo (smartphone, tablet, computador portátil) em acesso aberto, cujas funcionalidades servem para múltiplas atividades, incluindo leitura de lazer, estudo, análise, investigação avançada e criação literária”, acrescenta.

Fonte: Agência Lusa

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Definições de "Livros de Linhagens"

Livros de Linhagens:

Maria Garcia - Os Livros de Linhagens são conjuntos de linhas que reúnem todas as ligações genealógicas que permitem a união de famílias e o esclarecimento de questões causadas pela ignorância de quem falseia a sua vida.
 
Rita Fernandez - Livros de Linhagens: proveniente do latim "liber Lineae" deu entrada no século III. Procurava interiozar em papel linhas do tempo/cronológicas que integram as linhas geracionais de descendentes familiares.
 
Rafaela Garcia - Os Livros de Linhagens são livros que nos dão a conhecer as relações genealógicas de membros de famílias nobres. Estes eram bastantes comuns no passado, pois davam a conhecer aos homens a sua linhagem, permitindo-lhes saber os seus ascendentes e graus de parentesco, o que evitava casamentos incestuosos e assegurava os direitos hereditários de alguns dos membros da família.
 
Francisco Grilo - Livros de Linhagens ou "nobiliários" são documentos que nos dão informações sobre as origens, pertences, e heranças, de uma família, bem como sobre os laços entre os membros desta.
 
 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

"Barca bela" de Almeida Garrett

Poema "Barca bela", de Almeida Garrett:

 Pescador da barca bela,
Onde vás pescar com ela.
    Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
  Colhe a vela,
Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Ó pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
           Ó pescador!        


Nuno Júdice afirma que «"Barca bela" é o poema de Garrett com menos conotação sentimental», com o qual concordo.

Em todos os poemas de Garrett estudados em aula assistimos a uma espécie de poesia autobiográfica, na qual o sujeito poético relata em primeira mão o drama sentimental em que está envolvido, enquanto que na "Barca bela" tal não acontece.

Nos poemas deste autor é ainda frequente assistirmos à superlativação da mulher, que o domina e avassala e pelo qual este possui um amor intenso, um "morrer de amor". Em "Barca bela", no entanto, o sujeito poético aconselha o pescador a fugir de tal domínio e subjugação, dizendo-lhe "Inda é tempo, foge dela" (verso 18), isto é, já não está presente o sentimento de entrega amorosa. Garrett dá ao pescador o conselho que, talvez, gostaria que lhe tivessem dado.

Como tal, e por este ser, na minha opinião, o poema mais "impessoal" de Garrett, é também o menos emotivo.

Autora: Catarina Silva 


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Inaugurada a impressionante biblioteca de Tianjin

Esta é a prova de que as bibliotecas não têm de ser sítios aborrecidos.


 Foi inaugurada uma das mais futuristas bibliotecas do mundo, em Tiajin, na China.
 
 A Tianjin Binhai Public Library foi projetada pela empresa de arquitetos MVRDV e tem capacidade para 1,2 milhões de livros. Para já, as estantes ainda estão despidas.
 
 O espaço tem no meio uma esfera gigante que representa o olho humano.
 
 
 
 

 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Bernardim Ribeiro e Gil Vicente em "Um Auto de Gil Vicente"

           Na introdução desta obra assistimos à caracterização de Bernardim Ribeiro e Gil Vicente. 
        Em primeiro lugar, Gil Vicente é, efetivamente, apresentado na peça de Garrett enquanto "homem do povo" (l. 99), querendo e fazendo tudo pela sua arte, sendo que procura sempre aperfeiçoá-la e ser reconhecido socialmente, algo que temos, de facto, vindo a confirmar no "Auto de Gil Vicente". 
        Já Bernardim Ribeiro, "nobre e cavalheiro" (l. 108), dedicava-se às letras por passatempo, visto que servia a corte por ofício, contrastando com Mestre Gil, que "viveu independente no meio da dependência" e se viu livre da escravidão da corte. 
        Em segundo lugar, estamos perante um carácter "original e atrevido" (l. 104) de Gil Vicente, uma vez que lhe era permitido, como o próprio D. Manuel sugere, a crítica à sociedade nos seus diversos domínios ("Nunca me escondi de priores nem de cónegos (...) Vossa Alteza sabe bem que não sou medroso. Quando eu fiz o clérigo da Beira..."- Um Auto de Gil Vicente, cena 6, ato I). 
        Por outro lado, assistimos a um carácter menos mordaz e mais sentimental de Bernardim, explanado na "Introdução" desta obra ("e amar nele foi viver - amou como poeta" - l. 111) e no próprio texto em si, em concreto nos amores que viveu com D. Beatriz. Constata-se, assim, o sentimentalismo do autor de Menina e Moça, que, ao contrário de Gil Vicente, não procurou reconhecimento social, mas antes a realização pessoal e sentimental.
        Concluindo, assistimos a uma concordância do esboço inicial das personagens com o seu desempenho ao longo da ação. 


Autora: Catarina Silva



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Morrer de amor

        Morrer de amor é viver dele: este provérbio sintetiza a ideia da morte por amor, ou seja, uma morte que não é física, mas sim um abandono a um sentimento que pulula de vida. Como dizia Fernando Pessoa, “Amar é entregar-se”.
       
        Desde os primórdios da Literatura Portuguesa, o amor é uma temática constante. Não só na poesia, como nos mais variados géneros literários. Esta morte por amor principia na Poesia Trovadoresca, permanecendo até à atualidade. Tomem-se como exemplos as inúmeras composições literárias que abordam esta temática. Entre elas, contamos com poemas como «Ai madre, moiro d’amor», de D. Dinis (viragem do séc. XIII para o XIV), ou «Não posso adiar o amor», de António Ramos Rosa (séc. XX); o conto “José Matias”, de Eça de Queiroz (séc. XIX); a peça de teatro “Um auto de Gil Vicente”, de Almeida Garrett (séc. XIX); e o romance “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco (séc. XIX).

        No caso de “Um auto de Gil Vicente”, assistimos ao amor entre Bernardim Ribeiro e D. Beatriz. Bernardim “morre de amores” pela Infanta, que nutre o mesmo sentimento por ele. Porém, este amor enfrenta as adversidades do casamento com o Duque de Saboia, imposto pela corte.

        Concluindo, estas histórias são intemporais, já que o amor, embora possa vencer tudo (omnia vincit amor), nem sempre termina com um final feliz. Isso ensina-nos duas grandes histórias da literatura universal, tais como Tristão e Isolda e Romeu e Julieta.


Autores: Catarina Silva, Sara Nunes, Sofia P. Faustino e Domingos Lopes Gallego.

sábado, 30 de setembro de 2017

Sereno campo

Que sereno campo! Quieto cipreste!
O gado que caminha com o pastor
esquece assim o tempo agreste
desse inverno devastador.

Ao som da fome ecoam chocalhos.
Por vales e cabeços, entranha-se a melodia.
Pousam corujas nos galhos,
recolhem-se; acaba o dia...


Autores: Domingos Lopes Gallego e Sofia Faustino


sábado, 1 de julho de 2017

Fernão Mendes Pinto


“Como estando nós surtos na ponta de Tilaumera, vieram por acaso ter connosco quatro lanteas de remos em que vinha uma noiva” 



Neste capítulo, é possível identificar vários traços linguísticos e específicos, tanto de Fernão Mendes Pinto como deste tipo textual descritivo. 

Esta obra contesta a atuação dos portugueses que, durante muito tempo, foi considerada uma obra "mentirosa", pouco digna de atenção e pouco credível. Pela forma como contesta e mostra o revés da expansão marítima portuguesa, os estudiosos costumam acompanhar o seu estudo com o episódio do Velho do Restelo, d'Os Lusíadas de Camões, sendo que a visão do povo português presente na Peregrinação contrasta com a presente n’Os Lusíadas. Como exemplo das anti-façanhas do herói colectivo, os navegantes portugueses, leia-se, por exemplo, o episódio da noiva, no capítulo 47.

No fundo, trata-se de um conjunto de memórias autobiográficas. Na obra “Peregrinação” o autor narra a sua vida de aventuras e desventuras e as suas viagens pelo Oriente, ao longo de 21 anos, em relatos de enorme riqueza, com descrições muito pormenorizadas dos povos, das línguas e das terras por onde passou. Estas descrições revelam uma enorme admiração e fascínio pela grandiosidade dessas civilizações, chegando mesmo a pôr na boca de personagens orientais críticas à cobiça e ambição dos mercadores e militares ocidentais. Por outro lado, no Ocidente, à época, ninguém acreditava que o Oriente fosse assim tão rico no que toca a tradições culturais. Por estes factos, o autor é acusado de exagero, tendo ficado célebre o dito popular «Fernão, Mentes? Minto!». Mas hoje é consensual o valor histórico e literário da sua obra, feita de elementos verídicos e de ficção. 

Torna-se, porém, bastante difícil distinguir nesta obra o que é produto da imaginação de aquilo que é pura história. Mendes Pinto consegue dar às narrações uma roupagem tão concreta e tão cheia de vida que tudo nos parece natural e autêntico. Durante muito tempo, pensou-se que a maioria das peripécias narradas no livro não passariam de mentira. No entanto, com a descoberta do mundo oriental, sobretudo nos nossos dias, chegou-se a uma opinião contrária. Hoje, podemos verificar a exatidão de muitas das afirmações feitas pelo escritor acerca da China e do Japão, nas quais ninguém acreditava.



Autoras: Sofia P. Faustino, Sara Nunes e Catarina Silva

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Antologia de poemas de amor da Literatura Portuguesa

Esta antologia foi feita por nós, alunos de Literatura Portuguesa do 10º ano.

Ao abordar o amor, estes poetas integram-se numa tradição da Literatura Portuguesa.

Esta antologia, de textos marcados pela afetividade, deriva de uma pesquisa sobre a presença deste tema na obra dos autores nacionais. Nela incluem-se textos exclusivamente do género lírico, mas de épocas e autores distintos.

A organização desta coletânea segue um critério cronológico, começando com algumas cantigas de amigo e de amor medievais, que nos transportam do Século XIII ao Século XXI.  



                     



Realizado por: Sofia P. Faustino, Catarina Silva, Sara Nunes e Domingos Lopes Gallego;
Coordenação: António José Borges


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Temática do amor na lírica camoniana

        Nos textos de Camões é frequente a referência ao amor, à saudade, ao destino, à beleza suprema, aos ensinamentos morais, sociais e filosóficos, à mulher vista à luz do petrarquismo e do dantismo, a sensualidade, a experiência da vida. No entanto, a nível temático, o amor é visto como um serviço que transporta o enamorado a um estado de elevação. O amor pode não só provocar, no jovem apaixonado, o gosto na dor, como também conduzi-lo à luta entre a razão e o desejo ou à perturbação emocional perante a amada, como é muito frequente na lírica camoniana.

        Um dos poetas que mais influenciou Camões na sua poesia foi o poeta e humanista italiano Petrarca. O petrarquismo é uma atitude tomada pelo poeta perante a mulher amada. Esta é vista como fonte de perfeição moral, despertando nele uma espécie de amor platónico. A mulher é idealizada, é bela, imaculada, perfeita e, portanto, inalcançável. Ora, o poeta desabafa as suas mágoas à solidão da natureza, que se torna o reflexo dos estados de alma do poeta e, ao mesmo tempo, sua confidente. A influência petrarquista faz com que Camões busque o isolamento e a antecipação do sofrimento no amor. Para demonstrar o seu estado de sofrimento, o poeta utiliza um certo verbalismo, nomeadamente as frases exclamativas abundantes, as personificações, as antíteses e as apóstrofes.

        Em suma, as temáticas tradicionais e populares usadas por Camões são o amor, a natureza e a saudade. Nas temáticas de influência Renascentista cultivou o amor platónico, a saudade, o destino, a beleza suprema, a mudança, o desconcerto do mundo e a mulher vista à luz do Petrarquismo.



Escrito por: Catarina Silva e Sofia P. Faustino

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Algumas considerações sobre o poema "Endechas ou canção da diferença"

De Bárbara outro poema outra palavra
Senhora nossa que não tem senhor 

De Bárbara a diferença que faltava 
E nunca mais na língua uma só cor

De Bárbara o ser só ela sendo a outra 
Senhora nossa santa pretidão 

Antes de Bárbara Europa era tão pouca 
Cativos somos nós Bárbara não

ALEGRE, Manuel, 2000. Obra Poética. Lisboa: Dom Quixote 



        Este poema de Manuel Alegre, classificado como uma Endecha está de acordo com a medida velha e as estrofes (voltas) são oitavas divididas em quadras. Estas são as características necessárias para que o texto seja uma Endecha.

          Este texto é uma glosa feita por este autor ao poema "Aquela cativa", de Luís de Camões.

        No que toca ao verso “Senhora nossa que não tem senhor”(v.2) podemos observar que este se inspira no poema “Endechas” de Luís de Camões, mais concretamente nos versos “para ser senhora / de quem é cativa.” (Vv.21,22), em que ambos destacam a supremacia da beleza de Bárbara sobre aqueles que por ela se apaixonam.É através desta contradição de conceitos que podemos justificar o acrescento “canção da diferença”, feito por Manuel Alegre ao título do seu poema.

        Em ambos os poemas (de Luís de Camões e Manuel Alegre) é referida Bárbara, a amada, que era totalmente díspar do conceito de beleza da época. Bárbara era negra, tinha cabelo preto, olhos escuros e era uma cativa (escrava), no entanto o conceito de beleza da época caracterizava-se por cabelo loiro, tez nívea, olhos claros e teria de pertencer a uma classe social alta.

        Deste modo, constatamos que estes poemas que lhe são dedicados, procuram elogiar a diferença da mesma face aos modelos clássicos de beleza.


Escrito por: Domingos Lopes Gallego e Sara Nunes