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sexta-feira, 2 de março de 2018

Almeida Garrett- vida e obra

        João Batista da Silva Leitão (mais tarde de Almeida Garrett) nasceu no Porto, em 1799. Aí passou a infância, num caloroso ambiente burguês que lhe deixaria boas recordações. Aos 10 anos parte com a família para os Açores, onde inicia a sua formação literária sob a tutela do tio Frei Alexandre da Sagrada Família, bispo de Angra. 

        Ancorada no tempo histórico do Liberalismo, a obra literária garrettiana não pode conceber-se alheada do contexto político e cultural que a motivou. Da mesma circunstância decorre a orientação ‘iluminista’ e eticamente empenhada que desde o início do seu trajeto literário revestiu, por entender que «o poeta é também cidadão». 

        A poesia lírica e narrativa dominaria a primeira fase da sua carreira, ainda oscilante entre a lição do neoclassicismo convencional e a nova corrente romântica, de inspiração nacionalista. 

        A fase da maturidade (década de 40, sobretudo) seria particularmente fecunda, do ponto de vista literário. Surgem nesta altura as obras maiores do autor, abrangendo, com notável versatilidade, a lírica, a narrativa e o drama. 

        O autor também foi importante para o teatro português, participando de forma política e como dramaturgo. A construção do Teatro Nacional de D. Maria II, na época Teatro Normal, assim como a fundação do Conservatório de Arte Dramática, foram sugestões de Garrett. Garrett atribuía ao Teatro uma alta função civilizadora, e empenhou-se intensamente na sua renovação. Queria uma produção nacional de qualidade, suscetível de elevar o gosto e a cultura do público. A poesia lírica conhece também uma renovada inspiração. Das duas coletâneas poéticas desta fase – Flores sem Fruto (1845) e Folhas Caídas (1853), a última é sem dúvida a mais interessante, e onde mais livremente se expande o individualismo romântico. Aos temas mais convencionais – a divisão interior, a dialética mundo/espírito, o apelo de um idealismo transcendente (O Amor, A Perfeição, Deus, como absolutos da inquieta alma poética) –, acrescenta-se uma nova e ousada expressão do amor, epitomizada no famoso verso «Não te amo, quero-te!». 

        Almeida Garrett foi, assim, o escritor que deu início ao romantismo em Portugal. Um dos autores mais importantes da literatura do país, teve intensa atuação também na vida política. Com ideais liberais, lutou contra o absolutismo e foi exilado mais de uma vez. Como muitos escritores, utilizou o jornalismo para transmitir as suas ideias. 

       Quanto ao estilo, a sua linguagem é simples e expressiva, rejeitando a retórica clássica. Assistimos a uma parateatralidade, visível num tom coloquial coralizante e no recurso abundante a vocativos e interjeições. Note-se ainda uma marcada influência da lírica medieval e da poesia tradicional. Há uma liberdade formal, através da irregularidade estrófica, de acordo com o ritmo emotivo, e uma variedade de metros, inclusivamente no mesmo poema.





Trabalho realizado por: Catarina Silva e Sara Nunes

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Biografia de D. Pedro I e reflexões sobre a justiça na "Crónica de D.Pedro I" de Fernão Lopes


Oitavo rei de Portugal, quarto filho de D. Afonso IV e de Beatriz de Castela.

Casou primeiro com Branca de Castela, a quem repudiou por debilidade física e mental. Casou depois com Constança Manuel, filha de um fidalgo castelhano que, quando veio para Portugal, trouxe consigo Inês de Castro.

A ligação amorosa entre o infante D. Pedro e Inês de Castro foi imediata, o que provocou forte conflito entre D. Afonso IV e seu filho e causou a morte prematura de Constança Manuel. Temendo o monarca a nefasta influência dos Castros em seu filho, resolveu condenar à morte Inês de Castro, o que provocou a rebelião de D. Pedro contra si. Contudo, a paz entre o pai e o filho foi estabelecida em breve e D. Pedro foi associado aos negócios do Estado, ficando-lhe desde logo incumbida uma função que sempre haveria de andar ligada à sua memória – a de exercer justiça.

Durante o seu reinado evitou guerras, logrando aumentar o tesouro. Cunhou ouro e prata e exerceu uma justiça exemplar, sem discriminações, julgando de igual modo nobres e plebeus.

Os documentos coevos e o testemunho de Fernão Lopes definem-nos D.Pedro como justiceiro, generoso, folgazão, amado pelo povo e de grande popularidade. Sobre a sua morte o povo dizia que «ou não havia de ter nascido, ou nunca havia de morrer».

No prólogo da "Crónica de Pedro I", Fernão Lopes alonga-se nas reflexões sobre a justiça, como forma de preparar a narração subsequente do reinado de D.Pedro, marcado pela forma como, muitas vezes, o rei exerceu rígida e compulsivamente essa virtude que "husou muito", (ll. 51-52).
Tratando-se de um prólogo, o texto antecipa as considerações sobre a prática da justiça suscitada pelo relato da atuação do monarca.





quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Vida e obra de Goethe publicada em livro pela primeira vez em Portugal

Goethe, autor alemão cuja bibliografia é “das mais impressionantes da literatura universal”, mas escassamente divulgado em Portugal, tem agora, pela primeira vez, publicada uma obra que cobre toda a sua vida e produção literária, filosófica e científica.

Intitula-se “O eterno amador”. Foi publicada pela Bertrand e constitui a primeira monografia em Portugal de Johann Wolfgang Von Goethe, autor e estadista alemão, que fez também incursões pelo campo da ciência natural e que, como escritor, se tornou uma das mais importantes figuras da literatura.

João Barrento, ensaísta, crítico literário e especialista na obra de Goethe, optou por uma monografia, por preferir falar “do pensamento e da obra dos autores” do que limitar-se a escrever uma biografia, disse à agência Lusa.

Toda a primeira parte do livro “faz uma espécie de biografia literária e de pensamento” do escritor alemão, mas aquilo a que se pode chamar “biografia” encontra-se no final do livro, sob o título “Crónica: uma vida, uma obra, uma época”, e consiste numa cronologia dos acontecimentos.

“Preferi deslocar para aí o que é informação biográfica, de autor e de época, em vez de estar a inseri-la numa biografia convencional, que é coisa que não tenho muita vocação para fazer”, referiu.

João Barrento escolheu dar um título ao livro que é uma adjetivação do próprio Goethe – “eterno amador” - por ter sido alguém que nunca quis seguir nem ser “escravo” de “nenhuma corrente, nenhum ‘ismo’ - romantismo ou classicismo” -, tal como o expoente do Romantismo alemão escreveu num pequeno poema no final da vida, um dos milhares de pequenos poemas, que são uma “espécie de súmula de sabedoria de vida”.

Nesse poema, Goethe assumiu que seria sempre “o eterno amador” ou “o amador das coisas e do mundo”.

Esta "biografia literária e de pensamento" procura não só dar uma “visão de conjunto” de quem foi Goethe, mas também fazer justiça a um autor que ficou um “pouco esquecido” e sobre o qual não havia nada em Portugal – exceto algumas publicações dispersas”.

Embora algumas obras tenham sido traduzidas desde o século XIX, aquelas mais conhecidas, como “Fausto” ou “Werther”, “a figura em si é marginal entre os clássicos, porque se trata de um grande clássico das literaturas da época”.

Aliás, como refere João Barrento no livro, “Goethe é, com a Bíblia e Shakespeare, um autor cuja bibliografia ativa e passiva é das mais impressionantes da literatura universal”.

Goethe, que viveu entre os finais do século XVIII e inícios do século XIX, foi um autor, homem de Estado, advogado, pensador versátil, foi relevante política e socialmente no seu tempo, e escreveu poesia, prosa, memórias, ensaios, crítica literária e estética, tratados de botânica e anatomia, tendo deixado um acervo epistolar de mais de dez mil documentos e cerca de três mil desenhos e pinturas.

“É, à sua maneira, um pensador, embora não tenha nenhuma obra sistemática, mas é um pensador especulativo em que a experiência pessoal está sempre em primeiro plano, é uma figura múltipla”.

Tem outro aspeto importante: aparece numa época “em que muita coisa está a mudar no pensamento, nas artes, e que irá suscitar uma grande viragem para aquilo que podemos considerar a nossa modernidade”.

“É uma figura que, por um lado, assimila quase tudo o que está para trás, desde os antigos gregos e romanos, e por outro, anuncia uma série de coisas que aí vêm, nomeadamente a sociedade capitalista. Os desenvolvimentos que o século XIX depois viu estão muito presentes na segunda parte do ‘Fausto’. É uma figura de charneira, de viragem, e condensa imensos saberes”.

O pensamento do autor mantém-se nos dias de hoje: algumas obras podem ser lidas hoje com sentido de atualidade, por exemplo, toda essa segunda parte do “Fausto”, em que “aparece todo o processo de colonização, da civilização moderna, do capitalismo, do que se poderia chamar a glorificação do feminino, a figura da mulher com uma centralidade muito grande, tudo isso já está ali, é significativo e atual”, descreve o ensaísta.

Depois, “há uma atualidade nos clássicos que lhes vem de tratarem as grandes questões humanas e universais e esse universalismo Goethe tem muito, sempre sob uma perspetiva humanista”.

Já a presença de Goethe no espaço português tem sido “irregular” e “problemática” e João Barrento trata esse tema no final do livro, incluindo uma tabela sobre a receção desta personalidade em Portugal, do ponto de vista das obras que foram traduzidas e divulgadas e da presença dele em alguma literatura portuguesa.

Olhando para esta cronologia, percebe-se que “há bastantes momentos em que é importante”, nomeadamente Fernando Pessoa foi um leitor ativo de Goethe, continuando-o e respondendo-lhe com os fragmentos do “Primeiro Fausto”.

“Há também um momento em que o ‘Fausto’ serviu como uma espécie de pedra de toque de referência importante da geração de Antero de Quental, que referimos como a Questão Coimbrã, as grandes discussões que levaram à supressão final dos últimos romantismos e à entrada numa visão mais moderna do mundo e da literatura”.

O “Fausto” suscita uma grande polémica nessa geração e nessa altura, a que se chamou a “Questão do Fausto”, e vai ser um ponto importante de viragem para uma literatura das ideias e não para uma literatura do sentimentalismo, já esgotada, explica João Barrento.

Goethe volta depois a ser impulsionado em Portugal durante o nazismo, altura em que “há uma certa receção universitária, académica, mais em Coimbra do que em Lisboa, talvez porque é aproveitado de formas contraditórias”.

Para alguns, Goethe era visto como “ícone da germanidade” - o homem fáustico como o homem germânico -, recorda João Barrento. Mas esta ideia era “uma grande falsidade, porque o sentido da sua obra é mais universal do que alemão”.

Fonte: Agência Lusa
Texto adaptado pelos alunos de literatura portuguesa.






segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Biografia Ilustrada de D. Pedro, Conde de Barcelos

  Dom Pedro Afonso de Portugal (1287, Lalim - 1354), 3º Conde de Barcelos - segundo fontes, o primeiro filho natural de D. Dinis e, supostamente, de D. Grácia Froes. Foi um poeta e trovador de alta relevância para o desenvolvimento cultural da idade média em Portugal, escrevendo muitos dos textos mais importantes da época. 
   Foi um dos homens mais ricos do reino até à data da sua morte, pelo casamento curto com D. Branca Peres, herdeira de grande parte da fortuna dos Sousa. Com o seu segundo, mas novamente breve, casamento com a aragonesa D. Maria Ximenes consolidou esse estatuto e casou-se, desta vez definitivamente, com D. Teresa Anes, sua concubina, não tendo tido descendência. 
    D. Pedro passou anos exilado em Castela, pelo conflito que opôs D. Dinis ao príncipe herdeiro, D. Afonso, e com isso teve contacto com as atividades culturais da corte castelhana, prolongando o intenso labor do seu bisavô, Afonso X de Leão e Castela. Ao regressar, toma posse de todos os bens que lhe haviam sido confiscados, mas pouco depois da morte do seu pai tomou a decisão de se afastar, gradualmente, da corte do seu meio-irmão, com o qual acabou por entrar em dissidência (desacordo político), mas ainda lutando a seu lado na Batalha do Salado. 
    Encontrou refúgio nos seus paços de Lalim, transformados em centros culturais de grande importância. Aí, encontramos datado o seu testamento, e também aí morreu. 
    D. Pedro jaz sepultado no Mosteiro de São João de Tarouca, num túmulo com jacente, adornado com cenas de caça ao javali.
    Como mencionado, o Conde deixou marcas culturais, entre as mais importantes da idade média da Península Ibérica. Foi o compilador, ou o último entre um grupo de compiladores, das cantigas dos trovadores galego-portugueses. Encontramos, no seu testamento, um Livro de Cantigas, possivelmente o arquétipo dos cancioneiros manuscritos que chegaram aos dias atuais, que porém não chegou a quem tinha sido deixado no testamento de D. Pedro Afonso e não se sabe onde possa estar. Conhecem-se quatro cantigas de amor e seis cantigas de escárnio suas, escritas com habilidade e um senso de humor característico. O seu Livro de Linhagens e Crónica Geral de Espanha de 1344 seriam outras obras fundamentais da história e cultura da Península. Estas obras, que na época foram traduzidas para castelhano, são estudadas até hoje.
   O seu nobiliário é considerado um dos mais importantes da época medieval.


Releitura do retrato de D. Pedro, baseado na sua figura na Genealogia dos Reis de Portugal

 
Texto: Rafaela Garcia e Francisco Grilo
Ilustração: Francisco Grilo